Este texto nasceu do Ecommerce Podcast #4, com Felippe Goebel. Os números e casos citados abaixo são falas do episódio.
Existe um erro de maturidade que aparece com frequência em operações que começam a ganhar volume. A loja consegue plugar novas transportadoras, vê mais nomes aparecendo no checkout e conclui que está sofisticando a malha. No episódio, Felippe Goebel bate justamente nesse ponto. Para ele, em muitos casos, o operador está só comprando complexidade.
O exemplo que ele usa é bastante claro. Imagine um e-commerce com 100 pedidos por dia e 15 transportadoras na operação. Por fora, parece robusto. Por dentro, significa mais gente para controlar, mais fluxos de atendimento, mais variação de SLA, mais dispersão de volume e menos relevância sua para cada parceiro.
Esse raciocínio é importante porque contraria a intuição de quem associa “mais opções” a “melhor operação”. Na prática descrita no episódio, excesso de transportadoras pode piorar custo, piorar atendimento e ainda tornar a gestão mais cega.
O problema não é ter opção; é pulverizar volume
Felippe traz um raciocínio de negociação que vale tanto para frete quanto para compra de insumo. Se você concentra volume, tende a comprar mais barato. Se pulveriza demais, perde poder.
O exemplo dele usa uma operação com 10.000 entregas por mês. Se esse volume for espalhado demais, cada transportadora recebe pouco e você se torna pequeno para todas. Se a malha é mais concentrada, o peso da sua conta cresce e a conversa muda.
Essa parte do episódio é valiosa porque desloca a discussão de “quantas transportadoras existem” para “quanto volume cada uma recebe”. O número de parceiros, isoladamente, não explica a qualidade da malha. O que explica é a relação entre abrangência, relevância e controle.
Por isso, antes de perguntar se faltam transportadoras, o operador deveria perguntar se o volume atual já está suficientemente concentrado para negociar bem com as que tem.
A escolha deve ser por abrangência, não por coleção de logos
Quando o host pede uma média melhor de quantidade de transportadoras, Felippe evita uma fórmula baseada em volume puro e responde por abrangência. Essa resposta é mais útil do que parece.
Ele sugere uma construção gradual:
- identificar quem é forte no Sul;
- identificar quem atende bem o Nordeste;
- olhar quem tem cobertura nacional consistente;
- combinar nacionais robustas com alguma opção regional que faça sentido.
O ponto aqui não é copiar exatamente os nomes citados no episódio. O ponto é a lógica de composição.
Uma malha madura não nasce de “vou plugar tudo”. Ela nasce de “vou escolher quem resolve bem regiões ou perfis de entrega importantes para mim”. Quando isso é bem feito, a loja tende a trabalhar com menos parceiros, mais volume por parceiro e leitura melhor do que está acontecendo.
O excesso cobra três preços ao mesmo tempo
O episódio sugere pelo menos três custos de ter transportadoras demais.
1. Custo de negociação
Se a empresa dilui o volume em muitos parceiros, cada um recebe pouco. Com isso, cai a força para negociar tabela, prioridade e atenção. Felippe usa exatamente essa lógica para mostrar que, com mais concentração, o e-commerce passa a ser mais relevante para quem transporta.
2. Custo de operação
Mais transportadoras significam mais regras, mais exceções, mais contatos e mais ritmos de atendimento. O SAC precisa saber com quem falar, em qual prazo esperar resposta e como interpretar cada ocorrência. O que parecia “opção” vira atrito administrativo.
3. Custo de decisão
Quanto mais parceiros, mais difícil comparar preço, prazo e atendimento com consistência. A operação vira uma coleção de casos isolados. Quando chega um problema, a tendência é reagir por cansaço, não por dado.
Esse terceiro custo é talvez o mais subestimado. A loja não percebe que, ao multiplicar opções demais, enfraquece a própria capacidade de decidir com clareza.
A falsa solução de cortar tudo de uma vez
Curiosamente, a mesma operação que exagera na quantidade também pode errar no extremo oposto: cortar uma transportadora inteira por frustração momentânea.
Felippe faz um contraponto importante a essa postura. Se uma transportadora piorou em dois ou três estados, o ideal não é necessariamente desligá-la do país todo. O ideal é entender o recorte do problema.
Essa fala conversa diretamente com o tema da malha. Não basta ter poucas transportadoras. É preciso operá-las com critério. Uma malha enxuta e bem gerida vale mais do que uma malha gigante e impulsiva.
Em outras palavras, o bom desenho não é só o que escolhe menos parceiros. É o que também sabe preservar o parceiro certo na região certa.
O que ele faria em uma loja com 100 pedidos por dia
Aqui o episódio fica bastante concreto. Felippe diz que, se tivesse uma loja nessa faixa, usaria no máximo quatro transportadoras.
Esse número não aparece como regra universal, e o próprio episódio evita vendê-lo assim. Ainda assim, ele serve como bom antídoto contra a compulsão de plugar quinze ou vinte parceiros sem critério.
O desenho sugerido por ele aponta para algo como:
- duas transportadoras nacionais robustas;
- uma opção regional forte onde ela fizer sentido;
- uma quarta opção complementar, se houver lacuna real de prazo ou cobertura.
O valor desse modelo está na simplicidade. Com quatro parceiros bem escolhidos, a operação concentra volume, negocia melhor, controla melhor e ainda mantém alternativas suficientes para não ficar refém de um único canal.
Menos pode ser mais, desde que seja menos com método
Uma parte boa do episódio é que ela não cai na caricatura do “quanto menos, melhor”. Felippe não defende redução cega. Ele defende redução inteligente.
Se a loja ainda está aprendendo a malha, faz sentido testar. O que não faz sentido é plugar tudo ao mesmo tempo sem entender o comportamento de nenhuma.
Esse é o caminho sugerido:
- escolher poucas;
- validar performance real;
- concentrar volume onde houver eficiência;
- só depois ampliar, se existir motivo concreto.
Esse processo é muito melhor do que começar com excesso e depois tentar limpar o caos.
Como decidir se uma nova transportadora merece entrar
O episódio não entrega um checklist fechado para entrada de parceiro, mas deixa pistas suficientes para construir um:
- ela cobre uma região ou necessidade que a malha atual não resolve?
- ela melhora prazo, preço ou atendimento de forma relevante?
- ela receberá volume suficiente para fazer sentido?
- a operação conseguirá monitorar esse parceiro sem criar ruído demais?
Se a resposta for “não” para a maior parte dessas perguntas, a entrada provavelmente é só empolgação operacional.
O que fica da conversa
Maturidade logística não é quantidade de logos no checkout. Maturidade logística é saber por que cada parceiro está ali.
O episódio com Felippe Goebel insiste nessa disciplina. Transportadora demais não amplia automaticamente a competitividade. Em muitos casos, só espalha volume, embaralha leitura e pesa no SAC.
Se você quiser uma síntese prática da conversa, ela pode ser esta: construa a malha pela cobertura que precisa, concentre o volume que puder e só amplie quando a operação provar que precisa.
Perguntas frequentes
Existe um número mágico de transportadoras por volume?
Não. O episódio evita essa fórmula. Felippe responde por abrangência e, no exemplo de uma loja com 100 pedidos por dia, diz que usaria no máximo quatro.
Ter muitas transportadoras ajuda a baratear o frete?
Nem sempre. A conversa sugere o contrário quando o volume fica pulverizado demais, porque a loja perde relevância para cada parceiro e reduz poder de negociação.
Como saber se devo trocar ou apenas restringir uma transportadora?
O episódio recomenda olhar a performance por estado ou faixa de CEP. Se o problema estiver concentrado, a decisão mais inteligente pode ser restringir regionalmente em vez de cortar nacionalmente.